Em cada decisão
Algo vive
E
Algo morre.
Existe uma diferença entre o lugar em que você se coloca e o lugar em que você está. Existe uma diferença entre o que fizeram de você e o que você realmente é.
O que fizeram de nós é uma condição factual, foge da nossa mão e mesmo não gostando de estar ali, refém de ambientes decididos pelos outros, ainda assim somos obrigados a racionalizar e que tomar decisões diante daquilo.
Estamos condenados a ser livres e donos dos nossos destinos.
A gente não pode esquecer disso por mais que pareçam conceitos imaginários e já te adianto: não se engane com o campo das ideias, algo ser imaginário não o torna menos real, afinal é nossa cabeça a origem da nossa interpretação da realidade.
O Danificar e Subverter é a forma que eu encontrei de processar o que é real, é sobre sentimentos, sobre autoconhecimento, sobre se fazer presente pra mim mesma e validar o que eu sinto. E esse validar ele tem que ser de dentro pra fora mesmo. Na nossa vida nem sempre vamos ter nossos sentimentos validados, inclusive por pessoas que dizem que amam a gente.
A razão se faz uma ferramenta útil nessas situações para seres como nós que foram obrigados a viver em uma sociedade moralmente pautada na aversão das emoções consideradas ruins.
Tal hora da vida a gente é confrontado com a possibilidade de ser ilógico, trágico e impulsivo. Depois de uns anos, precisei aceitar isso para poder aceitar a mim mesma.
A vida, real como ela é, tem esse movimento caótico de existência e isso é o que nos faz ser quem somos.
Gostemos ou não, somos seres de instintos, de afetos e de necessidade de poder e a razão é uma ferramenta que nos controla e facilita passar um tanto ileso de um ambiente normativo e opressor, no qual todos estamos inseridos.
A razão é um conciliador, tentando justificar e nos dar respostas para o que não sabemos e não entendemos.
Ser moralmente correto e racional pode ainda ser apenas uma forma de legitimar um interesse pessoal também, seja qual for este, mesmo que seja algo positivo como ficar tranquilo, ainda assim é uma razão que serve a um interesse individual e é algo que nos dará um certo poder, mesmo que este seja o poder de esquecer. A razão não possui neutralidade, mas ela nos ajuda a contar uma versão melhor da vida e da gente mesmo, eu não a critico completamente mas não descarto a possibilidade de, no fundo, uso-a apenas para justificar a minha própria versão da realidade e esquecer um pouco todas as coisas a que me condicionam a estar onde eu não gosto.
Eu sempre tento ver os outros com um olhar gentil, com paciência e tudo mais, só que eu queria ter esse olhar pra mim e isso eu não consigo ainda. É doloroso aceitar o fato de que não damos conta nem da gente, de certa forma. E, em parte, entra aqui um conclusão que tive em um dia na terapia: A razão é uma forma de aceitar a dor.
Talvez, poucos sentimentos são tão potentes quanto este: dor.
Muito provavelmente, a dor é a força mais verdadeira que habita o ser humano, muito além do tão popular "ódio", e do famigerado amor, que é tão falado por aí como grande combustível do mundo.
A dor, o sofrimento, são fatores determinantes para a mudança. Através deles, vemos as coisas sem cortinas bonitas, sem enfeite, apenas a vontade crua e instintiva de que aquilo não aconteça mais e que mudem os movimentos da vida.
Talvez eu esteja fazendo isso agora mesmo, através deste texto, tentando organizar o caos da minha mente, e mudar alguma coisa na minha vida, esquecendo que caos não é falha, é potência.
"Apenas quem encara o abismo sem desviar o olhar é capaz de criar um novo valor pra si", disse o maluco.
Mas não somos estimulados a isso. Socialmente somos obrigados a nos anestesiar, a não gritar, a falar baixo, a ser cidadão, a ser domesticada, a pagar boleto, a ter o nome limpo, a ser sóbrio, a pensar antes de falar, a esconder nosso lado "feio" e qualquer resquício de vida que há em nós deve ser - tem que ser - reinventado, previsível e (mentirosamente) seguro, contudo, não há nada que venha do céu, do espaço, do chão, que nos salve de nós mesmos.
Tornar-se o que se é dói o ego e fere as certeza que usamos pra amenizar a vida.
Muito provavelmente, nunca encontrarei resposta nenhuma para as coisas que eu sinto e me questiono, será uma eterna resistência e coexistência estar com todas as coisas boas e terríveis no qual é construída a nossa vida e aceita-las tal como são.
A lei do eterno retorno, as voltas em círculo nos batendo sempre nos mesmos muros, os sonhos, os desejos, a necessidade de ter sentido e de compreensão, tudo isso dentro de uma pessoa não tem como ser leve.
Dito isso, aqui vai o encerramento do domingo de hoje: nem todos os desejos e sonhos caberão em regras morais.
Uma das características da modernidade é o forte sentido de indivíduo como centro de tudo. Eu.
O "eu sou" e "eu posso ser o que eu quiser" é uma coisa moderna. É algo do nosso momento histórico. Há 300 ou 400 anos atrás nós éramos o que nossas famílias eram. O sentido de eu possuia um significado comunitário e não falo isso entrando no mérito de bom ou ruim, é apenas um fato: você era o que seu ambiente permitia ser, você era definido por família, religião e comunidade.
No momento atual, segundo as redes sociais que parecem ter se tornado um complemento da vida, você é o que você tem, o que você finje ter, você é o que você consegue consumir.
E conseguimos consumir muito. Tanto é que nossas relações se dissolvem facilmente, consumimos as pessoas como se fossem objetos. Queremos tudo pronto e todos prontos ao que esperamos ter em nossas relações (românticas e não-românticas). Qualquer divergência é motivo de isolamento, cancelamento e fragmentação. Visivelmente não estamos mais dispostos a debater e nos conectar com as diferenças nos nossos meios sociais. E isso é algo que me perturba e tem me perturbado há muito tempo.
Para quem repara na minha forma de escrever, deve ter notado que eu sempre escrevo em primeira pessoa porque, apesar de refletir bastante a respeito, sempre chego a conclusão que sou produto do meio (e sou além disso também, mas é conversa para outro texto). Não vejo como eu poderia me ver de fora do que eu escrevo aqui. Eu vivo e sou parte do que eu escrevo.
Voltando a conversa doida que comecei...
Zygmund Bauman (1925-2017) falava sobre isso em Modernidade Líquida (2000). Líquida no sentido de volátil, adaptável e mutável aos mil estímulos dispostos para gente e a segurança praticamente inexistente nessas mudanças. Tudo é imprevisível, efêmero e raso. E por isso estamos tão confusos recebendo estímulos constantes das "mil coisas que poderíamos ser" mas a verdade é que jamais agarraríamos todas essas possibilidades em apenas uma vida ... nem se tivéssemos mil braços e 3 cérebros. Isso nos causa angústia, esse vislumbre das infinitas possibilidades nos causa angústia. O medo de escolher o caminho errado, a vida errada..a rua errada.. enfim
Parece que precisamos ser algo traçado e de muito sucesso aos 30 a qualquer custo, ou então viveremos uma vida de frustração.
Sendo que a maior frustração de todas é esta vida de competição imaginária e seleções cruéis do capitalismo moderno.
Inclusive, ser é um conceito que me perturba: não conseguimos ser e existir ao mesmo tempo. Nós estamos sendo, ou seja, somos um processo. Quem somos muda o tempo inteiro e nossos caminhos são incertos por mais que planejemos.
Viver essa vida de querer ser algo concreto é um caminho infeliz. Quem você quer ser e o que você faz para isso é muito mais importante do que quem você é.
E tudo isso me traz ansiedade, essa abstração, sem objeto de ânsia.
"Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?"
O que eu serei é um percurso e sua conclusão será vista ao final da vida que pode ser daqui a meia hora ou daqui a 60 anos. Não há motivos para se preocupar em concretizar o Ser no agora, no hoje.
Está fora do nosso controle.
Falando em controle, eis outro fator de discussão cerebral (eu comigo mesma): É muito difícil aceitar a ideia de que eu só posso controlar as minhas ações. "Posso" entre muitas aspas, porque o impulso está aí e as vezes queremos satisfazê-lo. Aí entra a questão emocional e irracional dos sentimentos, onde sentimos coisas que não fazem o menor sentido, sabemos que não fazem e não podemos evitar sentir. Aí volta a questão da ansiedade.
É uma (triste) rodinha de rato.
Acho que esse texto é triste e eu vinha evitando falar de tristeza aqui. Estou a meses carregando uma melancolia além da que já me é comum. Muito reclusa aos meus pensamentos ... desconectada do aqui e agora.
E agora me vem mais uma pergunta que vive martelando meu juízo:
O indivíduo é incompatível com a conexão?
Atualmente, somos individualistas? O eu importa mais do que o coletivo?
Nestes "devaneios tolos a me torturar" o que quero dizer é que a existência é complexa. Nos engessarmos em concretude, ignoramos o valor da ação e dos processos transitórios das nossas vidas pessoais e coletivas.
Não se esqueçam amigos: se eu não sei onde eu quero ir, qualquer lugar me serve. E neste qualquer eu também me perco. Neste não me ver no outro, deste desinteresse e descarte que se intensificam nas relações eu me torno menos coesa a cada passo. Se fragmenta a sociedade. Se perde a sociabilidade.
E a rodinha do rato gira cada vez mais rápido
O maior poder que se pode ter na vida, é o poder sobre si mesmo, dizem. E neste momento de esfacelamento da realidade e do que é a verdade, onde o que sobra pra gente de identidade coletiva é quase nada, eu me questiono cada vez mais onde está essa emancipação que a modernidade tanto prega. Onde eu me enquadro nesse ambiente de possibilidade que eu sempre quis ser?
Desculpem a conversa triste. Tem dias que sinto dificuldade de existir.
"o Partido está na posse da verdade absoluta, e é claro que o absoluto nunca pode ter sido diferente do que é agora. Será visto adiante que o controle do passado depende, acima de tudo, do treino da memória. Garantir que todos os registros escritos concordem com a ortodoxia do momento é apenas um ato mecânico." George Orwell
Não costumo falar sobre o 8 de março, pois é um dia de profunda reflexão pra mim.
Contudo, fazendo da escrita meu hábito de conversar comigo mesma, decidi dar corpo a este pensamento nesse textinho curto que não faz jus ao imenso peso histórico que deu origem a esse dia. Não trarei artigos educativos para tentar ensinar nada a ninguém.
Neste dia, geralmente me calo e reflito sobre todas as mulheres que sacrificam suas vidas em prol de criar um mundo justo e igualitário e por toda a luta de classes que envolve o 8 de março. Admiro quem consegue se expressar com palavras contundentes e claras, mas eu não consigo, hoje não. Me sinto sufocada por, desde o século XX, se exigir o mínimo e ainda assim receber de volta tão pouco. Por ainda ter que falar "não" mais de uma vez. Por ainda precisar explicar o óbvio.
Sempre foi um dia que odiei. Não diminuindo o contexto histórico e a origem de luta trabalhista deste dia, que inclusive se perdeu engolido pelo capital e o comércio, mas pelo fato que de que amanhã, quando pararem de vender flores nos semáforos e acabarem os "parabéns", eu voltarei a ser , para esta sociedade patriarcal, um objeto, uma cidadã de segunda classe.
Não se diminuam por motivos externos. A nossa trajetória tem muito valor
Quem nós somos tem muito valor, nossos desejos e buscas coletivas e individuais tem muito valor.
Valorizem suas histórias e batalhas, elas são únicas e foram difíceis.
O nome do ministério é irônico, pois na história, ele é o mais cruel de todos. Ele tira a capacidade das pessoas de criarem laços, de formarem associações por interesse em comum e torna todos um inimigo em potencial, pois premia, com honrarias, quem denuncia traidores.
A comunicação afetiva nos transforma individualmente e coletivamente.
Quando falo em comunicação afetiva, não estou dizendo para falar tudo que vem na mente e conversar com todos, contar tudo sobre si mesmo e essas coisas superficiais. Que inclusive são perigosas
Comunicação vai além da fala objetiva, é um conjunto de ações que busca fortalecer e estabelecer laços emocionais e promover uma compreensão maior e uma real troca entre os envolvidos, e estes podem ser sua família, seus amigos, amigas e amigues, seus romances ou até mesmo um grupo de pessoas.
Estar aberto a um diálogo onde você ouça mais atentamente, se interessar pelas pessoas, perguntar com um próposito de real compreensão, ter empatia e principalmente respeitar as emoções individuais e coletivas é crucial para manter ambientes saudáveis e manter a si mesmo saudável.
A comunicação afetiva envolve a expressão sincera de emoções e nem todas precisam ser positivas.
Afeto não significa gostar, significa afetar e permitir-se ser afetado. Isso pode sim incluir demonstrações de empatia, gratidão e carinho com as pessoas mas também significa impor limites. Antes de gostar do outro é necessários gostar de si mesmo.
E aqui entramos na questão do amor.
Aprendemos que amar é doar-se e nada mais. Aprendemos tarde, ou talvez nunca, que amar também inclui a si mesmo. Inclui respeitar-se. Só caminhamos à emancipação estabelecendo limites e não se esvaziando em prol de algo ou alguém.
Fomos ensinados que o único amor é o romântico, o urgente, de filme.. que tudo tem que ser agora e tem que ser voraz, abandonar-se por completo e pra ontem!! Como se a vida fosse escapar dos dedos caso não acontecesse.
Me cansei só em escrever.
Vi uma frase num muro que dizia
"Te vejo livre, não domino;
Me vejo livre, não pertenço;
No fim das contas isso é amor."
Eu e meu companheiro conversamos muito sobre ela. Mandei a frase para ele há pelos menos uns 6 anos atrás, quando estávamos nos conhecendo mais intimamente, abordamos sobre nossas perpectivas em relação a estar com alguém e dividir a vida.
Ter uma relação assim, onde o amor não sufoca, se respeita a individualidade e a liberdade de ser e estar me trouxe muitas coisas positivas sobre saúde mental, autocuidado, diálogo honesto e um profundo respeito pela autonomia. Busco levar o mesmo a ele e as pessoas ao meu redor. É nítido como essa nossa forma de se relacionar nos faz crescer juntos e sonhar juntos sobre um futuro mais harmonioso abrangendo também as pessoas que estão conosco na vida.
A ideia de posse e domínio é rotineiramente questionada e combativa nas nossas vidas, entre nós e nos nossos ciclos de amizade também.
Simone de Beauvoir, no livro O Segundo Sexo, expõe as lógicas de dominações presentes dentro desta noção de "amor" cujo o objetivo é a validação e que a sua identidade só pode existir vinculada à alguém. Isso afeta principalmente as mulheres tornando-as passíveis de subordinação e impedidas de experienciarem outras formas de amor e afeto. O livro é bem mais aprodundado do que isso que destaquei, mas essa parte tem muito a ver com que quero abordar aqui.
As relações tornando-se superficiais nos impedem de imaginar um futuro coletivamente positivo, onde homens e mulheres podem viver uma equidade social, individual e afetiva.
Nesta noção, que vou chamar aqui de amor-prisão, o entendimento de si mesmo e do outro pouco importa, a necessidade e a vontade do outro pouco importa, a relação se torna uma busca incessante por ser algo através de alguém. E na sociedade do capital e do cansaço, que vende a ideia de que se pode ter tudo e ao mesmo tempo não temos nada toda relação é de uso e desuso onde a interação só se baseia em interesse social e material e isso, coletivamente, nos divide.
Voltando a instituição governamental fictícia de George Orwell, o Ministério do Amor combatia com mãos de ferro as relações interpessoais.
Proibir o amor e as relações de afeto enfraquecia as pessoas, isolava-os e os limitaria a vidas solitárias sem experienciar os laços de lealdade. Toda fidelidade se direcionaria ao líder supremo e nada sobraria para os grupos sociais, nem mesmo para si. O controle emocional é uma das muitas maneiras de submissão, estratégicamente uma garantia de poder e mantem a passividade e a conformidade dos indivíduos dentro de uma sociedade cruel, limitante e totalitária. Suprimir relações afetivas com seus amigos, família, entre sexos e gêneros diferentes e outros diversos grupos é uma tática que cria um ambiente hostil, de medo, subserviente, que vai corroer toda a capacidade de resistência e promover desconfiança nos afastando cada vez mais de nossa emancipação coletiva.
As ações do Ministério do Amor e sua existência são fictícias, qualquer coincidência com a realidade é mera semelhança.
Quando nos vermos em uma circunstância onde nos sentimos intimidados e descrente de nós mesmo por não se encaixar em algo, não é a falta de adequação que nos perturba mas sim a nossa opinião sobre nós mesmos.
Qualquer evento externo (que não parte de nós) é algo neutro. O peso dele se dá pelo valor que damos a isso. Não há valor positivo ou negativo é apenas um fato.
Convido você que lê esse texto e que passou por algo onde se sentiu insuficiente ou rejeitado que visse essa situação apenas como uma resposta ou uma perspectiva diferente, uma oportunidade de auto aprendizado e para seu auto conhecimento, onde aqui posso incluir o conceito de auto gestão tão presente e difundido dentro no anarquismo, afinal a auto gestão significa muito mais do que uma sociedade sem políticos e partidos.
A auto-gestão anarquista é a afirmação de que somos capazes de nos organizar de maneira justa e equitativa, sem a necessidade de autoridades externas ditando nossos passos.
Como autoridade externa podemos considerar toda e qualquer coisa que nos imponha um tempo, uma regra ou uma conduta na qual não estamos dispostos a obedecer.
No coração da auto-gestão anarquista, a autoridade é substituída pela autodeterminação, e a ordem surge da colaboração espontânea, não da imposição externa. Portanto camarada, seja fiel a si mesmo, aos seus valores e ao mundo que você queira criar. Provavelmente não veremos esse mundo pronto, talvez ele nunca exista mas não se sinta desmotivado ou fraco. A resistência não é apenas um ato, é um estado de espírito anarquista que se manifesta na recusa persistente de se curvar diante de quaisquer agressão a nós mesmos.
"Tua liberdade estende a minha ao infinito "(Mikhail Bakunin)